10,8 x 14,8 cm
2021-2022
Impressão de fotografia digital em couchê com laminação brilho 250g/m2
trazer as coisas à vida
A partir da ideia de incorporar-me ao espaço, fazer parte da casa, desenvolvi três fotografias, em que partes do meu corpo passaram a apresentar uma posição horizontalizada em relação aos objetos da casa. Esta ideia de corpo como parte da casa, como uma espécie de órgão, relaciona-se ao conceito operatório coexistencializar, em que assumo que é necessário perceber-se com os elementos circundantes e não perceber por meio de algo. Esse entendimento advém do contato com o antropólogo Tim Ingold que argumenta que precisamos nos misturar ao ambiente, ao invés de apenas percebê-lo como seres à parte dele. (INGOLD, 2015).
A perspectiva com pode assumir características de topofilia e/ou topofobia, em que o conceito de topofilia refere-se a relações de afinidade em espaços que geram boas sensações (TUAN, 1980), e o conceito de topofobia implica o oposto. Ao posicionar-me com o espaço, ambas relações podem coexistir. Além disso, o corpo incorporado na casa assume outra perspectiva sensorial, de maneira que percebo com a casa e não por meio dela. Esta é a ideia central das fotografias desenvolvidas, o que possibilitou-me trazer as coisas à vida. Coexistencializar.

Se eu fosse o filtro de barro da minha cozinha, prestaria atenção em como a água passa pela minha vela, tornando-se mais potável. Prestaria atenção em cada ser humano que viesse buscar um pouco de água, suas mãos, seus copos, seus corpos. Refletiria sobre a água que não habita os rios, mas me habita. Prestaria atenção na chuva, que cai no rio e vem parar dentro de mim. Prestaria atenção em meu corpo feito de barro, fresco e natural como o chão de terra. Prestaria atenção em como cada gota de água deixa de ser cheia de cloro para se tornar mais viva, mais água. Se eu fosse o filtro de barro da minha cozinha, com certeza eu pensaria em por que os humanos não me agradecem por filtrar a água que os mantém vivos.

Se eu fosse o cabideiro do meu quarto, prestaria atenção em como cada roupa, cada bolsa se pendura em mim, algumas mais pesadas, outras leves como o vento. Prestaria atenção em meu corpo feito de madeira: de onde eu veio? Refletiria sobre as madeiras que foram mortas para se transformar em mim. Pensaria em como gostaria de não carregar a morte em mim. Prestaria atenção nas mãos dos humanos e como elas encostam em meu corpo de madeira, sem nunca prestar atenção em mim.

Se eu fosse o travesseiro da minha cama, prestaria atenção na cabeça que repousa em mim todas as noites, no cabelo que encosta em meu corpo. Pensaria sobre como a cabeça, às vezes, repousa menos do que estou acostumado e fico largado na cama, apenas observando o teto. Prestaria atenção nas moscas voando, na luz na minha cara o dia todo. Refletiria de onde eu vim e como vou morrer. Descartado em um aterro sanitário? Será que vão me jogar lá pra morrer ou vão me matar antes, me dar outra possibilidade de existência, talvez me reciclar? Tenho medo dos humanos.


